segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Sonho da Vida

O Sonho da Vida
Sequência espiritual de “Não é, John?”
Pedro Sciarotta
A manhã já havia quase acabado e John ainda babava no sofá da sala. Acordei-o no susto e ele resmungou que só estava dormindo. Típico. Minutos depois, na mesa do café, Lennon pegou o jornal. Apesar das notícias do outro lado serem meio tristes, ele deu uma risada. Um homem havia ganhado na loteria e morreu pouco tempo depois em um acidente de carro. As pessoas diziam que era vontade divina ou algo do tipo, mas John não acreditava nisso e começou a ficar todo filosófico para o meu lado. Para ele, Deus era um conceito pelo qual nós mediamos nossa dor. Ele até repetiu. Mastigando um pedaço de peru frio – que ele dizia ser bom para a sua abstinência –, continuou o raciocínio dizendo que não acreditava em mais nada. Nem mesmo nos Beatles, e que o sonho tinha acabado. Calma, John, acabei de acordar, não me solta uma dessas. A verdade é que ele estava com saudades da Yoko, que está lá em Nova York, firme e forte, e aí acaba falando umas bobagens.
Falando em sonhos, o que sonhei na noite passada foi uma loucura. Artistas de diferentes épocas e músicos que nem se conheceram reunidos em uma festa gigante na minha antiga casa. Isso porque eu nem tenho casa atualmente, já que sou novo na região, mas o John foi simpático em me acolher por enquanto. E pensando bem, talvez um dia essa festa se torne realidade já que uma boa parte do pessoal já chegou por aqui, mas é um pouco mórbido que eu fique feliz com esse pensamento.
Saímos após o café e logo ouvi uma guitarra choramingando gentilmente ali perto em um vasto jardim. George Harrison tocava e o sol e a lua se revezavam em uma simples mudança de acordes. Ora vinha um, ora outro. O som era calmo, relaxante. Lembrava-me que eu era apenas um pontinho em um imensurável universo cheio de galáxias - e a vida seguia, eu estando nela ou não. A cítara e todos aqueles outros instrumentos indianos que eu não sei o nome preenchiam o ambiente com leveza. E bom, era só o George que tocava, então eu realmente não sei como ele estava fazendo tudo aquilo.
Quando dei por mim, já era quase noite. Foi aí que avistei Kurt Cobain, sozinho, atravessando o jardim como se andasse em nuvens. Ele se aproximou de nós três. Kurt possuía um cheiro doce, de desodorante feminino, que se misturava com o perfume das flores próximas. Ele disse que havia ouvido falar sobre a minha chegada e como eu era o mais novo a chegar na região, quis saber notícias. Perguntou sobre Courtney e Frances, que eu sabia que havia se tornado uma linda garota. Depois, Kurt quis saber sobre seus ex-companheiros de banda. Eu não tinha conhecido Dave Grohl pessoalmente, mas soube por um amigo de um amigo que Dave estava se divertindo muito ao fazer shows em estádios lotados com a maior banda de rock da atualidade. “Chegar ao topo duas vezes não é pra qualquer um”, disse Kurt enquanto se lembrava da época em que os dois dividiam o mesmo isqueiro para acender um cigarro.
“O primeiro show do Dave com o Nirvana foi no dia em que eu nasci!”, contei parecendo mais um fã do que um amigo – bom, uma coisa não impede a outra. “Nada é por acaso”, respondeu Kurt com um sorriso leve enquanto soprava fumaça. Ele também quis saber sobre Krist, Pati Smith e de quem mais conseguiu se lembrar. Fui respondendo tudo o que pude enquanto caminhávamos junto com John. George ficou para meditar com o restante de luz do pôr-do-sol. Ele sabe que o crepúsculo não dura a tarde toda. E se estiver nublado, basta a mente para soprar as nuvens embora.
A noite caiu de vez e trouxe uma chuva leve. Fomos para o Clube 27, o pub mais popular da região, que já começava a ficar agitado. Além de Kurt, Jimi, Janis e Jim eram grandes frequentadores. Jim, aliás, havia passado um bom tempo sumido e não dizia para ninguém onde esteve – pelo menos foi o que me contaram. Eu aposto que ele estava em Seychelles. Um pouco arriscado, mas... bom, é o Jim, né? Ele adora partir para o outro lado. E também tenho certeza que ele usava aquele anagrama como nome – o tal de Mr. Mojo Rising. Todo poeta é meio narcisista, já repararam? Quer dizer, acho que todos nós somos em algum grau. Mas não é todo mundo que se julga o Rei Lagarto e diz que pode fazer qualquer coisa. Não seria difícil ele não ser identificado, já que deixou a barba crescer e deu uma engordada. Ninguém reconheceria o poeta americano das fotos históricas em pôsteres e capas de revista.
Jim Morrison já parecia estar no bar há algum tempo, com um copo de uísque em uma mão e uma cerveja na outra. Ele adorava a comida soul food do Clube 27. Jim me viu e veio dizer que só havia visto pessoas estranhas nessa noite. Respondi que talvez fosse por ele ser mais estranho, e ele fez uma expressão como que pensando sobre o assunto e concordando ao mesmo tempo. Ele me encarou com olhos vidrados, como que enxergando no fundo da cozinha da minha alma. Como se pudesse ler algum alfabeto secreto e decifrar meus sentimentos, ele sussurrou “aprenda a esquecer, aprenda a esquecer”, antes de levar o copo com uísque e gelo à boca. Ironicamente, eu nunca me esqueceria desse momento.
Ele começou a falar sobre as garotas do bar. Disse que elas tinham um ar solitário e deviam ser de LA, sua terra de coração. Que elas pareciam anjos perdidos e provavelmente vieram dos subúrbios para o blues da cidade noturna. Ele continuava a vociferar outros devaneios, mas meus pensamentos já tinham ido para outro lugar a partir do momento que ele falou “LA”. “Imagina quando os caras do Red Hot Chili Peppers chegarem por aqui?!”, pensei. Quantas histórias cabem em uma Los Angeles só?
Janis apareceu do nada, se agarrando em Morrison e em mim. Já estava bêbada e começou a dar em cima de qualquer um que a ouvisse. Queria entregar pedaços do seu coração a quem estivesse disposto a aceitar. Eu recusei meio sem jeito, e ela falou que iria tentar com um pouco mais de esforço. Não que eu fosse votar nela como o garoto mais feio do colégio, mas Janis simplesmente não fazia meu tipo. Louca demais. Essa é outra verdade sobre os gênios idolatrados. Eles preferem queimar a se apagar aos poucos, como disse Neil Young e replicou Kurt Cobain. Ou o tradicional “espero morrer antes de ficar velho”, como cantava o The Who. Quer dizer, ainda cantam já que Pete Townshend e Roger Daltrey estão lá do outro lado. Meio faça o que eu digo, não faça o que eu faço. Ou melhor: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Jimi nos cumprimentou e veio ver se Janis estava bem. Eles só tinham vindo fazer o esquenta aqui e logo iriam para outro lugar. Os dois queriam dar uma variada e estavam indo para o Pet Sematary, um bar punk próximo em que a galera do Ramones tinha marcado um reencontro.
Após alguns minutos conversando, deixei todos de lado e me afastei atraído por uma voz hipnotizante. Amy Winehouse abria a noite e já soltava os primeiros versos de cima do palco. Apesar de ser relativamente nova por aqui, já se sentia em casa. O Clube 27 era quase sua morada. Ela fez amizade com muita gente: Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e, claro, com quem já havia chegado aqui dos grupos de garotas que faziam sucesso nos anos 60, como as The Ronettes e as The Shangri-Las. Vivia sendo vista com Donny Hathaway, sempre aprendendo alguma coisa nova.
Sentei sozinho em uma mesa onde eu podia observar ao mesmo tempo a cantora e a chuva que caía na rua através do vidro do bar. Por algum motivo, estava me sentindo dentro daquele famoso quadro de Edward Hopper. Pedi uma cerveja enquanto ouvia Amy cantar sobre seus relacionamentos. Que só precisavam alterar o gênero do eu-lírico para serem tão meus também. Entre uma canção e outra, ela era espirituosa e interagia com o público. Em um momento procurava seu pai, mas depois se lembrou de que ele ainda não havia chegado. Em outro, provocou risadas ao admitir que estava bêbada. A gente sabe que ela sempre mantém uma garrafa por perto.
A chuva apertou lá fora. Por trás do vidro eu via as gotas caírem enquanto a voz de Amy Winehouse embalava meus pensamentos. Tudo o que ela cantava era tão melancolicamente bonito. Triste e belo ao mesmo tempo, assim como a cidade na chuva que brilhava suas luzes para ninguém. Era como se o asfalto molhado, além de trazer o reflexo dos faróis, postes e luzes de neon, refletisse também a alma solitária de Amy – enquanto ela dizia não haver problema, já que suas lágrimas secavam sozinhas.
A cantora britânica seguia cantando e agora eu, hipnotizado, não conseguia tirar os olhos dela. Vendo uma mulher resolvida, eu só enxergava uma garota insegura. Talvez isso fosse apenas meu terceiro pint tentando me dizer alguma coisa, mas a dor e a tristeza transmitida pela sua voz tiveram o efeito contrário em mim. Enquanto Winehouse me lembrava de que nós só dissemos adeus com palavras - não com sentimentos - eu percebi que não adiantava continuar daquele jeito.
Nesse instante, me levantei e que compreendi tudo ao meu redor. Se a noite era fria e chuvosa, isso era apenas uma demonstração do meu estado de espírito. Se o sol reinava no céu azul ou as nuvens faziam formas engraçadas, era apenas porque eu queria assim. Aqui era qualquer coisa que eu quisesse que fosse. Um lugar sem guerras, só amor em todas as suas formas. Sem posses, territórios, religiões. Era um lugar para sonhadores, como John queria.
Saí do Clube 27 e o dia brilhava maravilhosamente, feito mágica. Nesse momento, percebi o que havia acontecido comigo. Lembrei as palavras do poema de Percy Shelley, que Mick Jagger usou quando Brian Jones veio para cá. "Paz, paz! Ele não está morto, não está dormindo, apenas acordou do sonho da vida".