Coloquei o disco para tocar.
Tudo com o seu devido cuidado. Retirei a capa do plástico,
peguei o LP com as duas mãos (cada uma esticada segurando um dos lados) e o
coloquei suavemente sob a agulha da vitrola.
A primeira faixa era incrível. Um ritmo lento, calmo. Aproveitamos
para dançar juntinhos e nos conhecer melhor. O registro de novas informações
era fácil e a conversa fluía naturalmente. “Ah! Sério que você tem família lá?”.
Entre bobagens e descobertas, o mundo girava mais devagar.
Tudo era tão novo e entusiasmante. A segunda faixa logo
ganhou mais velocidade. Era a trilha sonora para os nossos filmes e momentos. Aquela
excitação no peito ao vê-la entrar no carro, um beijinho para cumprimentar, e o
destino já não importava mais.
E quando vimos, já estávamos na terceira música. Algo
romântico, cheio de acordes melosos e que inevitavelmente levou aos “eu te
amos” e a pergunta-chave. Quer namorar comigo? As respirações ao ouvido eram
tranquilas e os planos eram para sempre.
O som se intensificou. O bom e velho rock ‘n’ roll nos
acompanhava onde quer que fossemos. Às
vezes éramos solos de guitarra, outras vezes refrão. Mas não importava. A
música durou tempo o suficiente para chegar ao topo das paradas, entrar em
coletâneas, e ser sempre lembrada por alguém no violão. Hit é hit.
Mas aí veio a quinta faixa. Uma música sem intensidade, que
mal dava para ouvir. Nenhum dos dois fez questão de aumentar o volume, até
porque não estávamos ao lado da vitrola o tempo todo. Mas o lado A acabou, e senti
que seria errado não continuar ouvindo.
Virei para o lado B. Mas o som foi mais do mesmo da faixa anterior
e tudo acabou muito rápido, apesar da música se alongar sem fim dentro da minha
cabeça.
“Vai lá, muda o disco”, era o que eu queria ouvir. Mas ela
parecia não se importar com as rotações eternas de um disco sem lembranças.