quinta-feira, 21 de junho de 2012

Vai lá, muda o disco.


Coloquei o disco para tocar. 

Tudo com o seu devido cuidado. Retirei a capa do plástico, peguei o LP com as duas mãos (cada uma esticada segurando um dos lados) e o coloquei suavemente sob a agulha da vitrola.

A primeira faixa era incrível. Um ritmo lento, calmo. Aproveitamos para dançar juntinhos e nos conhecer melhor. O registro de novas informações era fácil e a conversa fluía naturalmente. “Ah! Sério que você tem família lá?”. Entre bobagens e descobertas, o mundo girava mais devagar.

Tudo era tão novo e entusiasmante. A segunda faixa logo ganhou mais velocidade. Era a trilha sonora para os nossos filmes e momentos. Aquela excitação no peito ao vê-la entrar no carro, um beijinho para cumprimentar, e o destino já não importava mais.

E quando vimos, já estávamos na terceira música. Algo romântico, cheio de acordes melosos e que inevitavelmente levou aos “eu te amos” e a pergunta-chave. Quer namorar comigo? As respirações ao ouvido eram tranquilas e os planos eram para sempre.

O som se intensificou. O bom e velho rock ‘n’ roll nos acompanhava onde quer que fossemos.  Às vezes éramos solos de guitarra, outras vezes refrão. Mas não importava. A música durou tempo o suficiente para chegar ao topo das paradas, entrar em coletâneas, e ser sempre lembrada por alguém no violão. Hit é hit.

Mas aí veio a quinta faixa. Uma música sem intensidade, que mal dava para ouvir. Nenhum dos dois fez questão de aumentar o volume, até porque não estávamos ao lado da vitrola o tempo todo. Mas o lado A acabou, e senti que seria errado não continuar ouvindo.

Virei para o lado B. Mas o som foi mais do mesmo da faixa anterior e tudo acabou muito rápido, apesar da música se alongar sem fim dentro da minha cabeça.

“Vai lá, muda o disco”, era o que eu queria ouvir. Mas ela parecia não se importar com as rotações eternas de um disco sem lembranças.